Uma pitada de otimismo.

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João Telles Corrêa Filho Telles Corrêa Filho João Telles Corrêa Filho*
Começamos 2016 com a confirmação de que a inflação foi a mais elevada em doze anos, que o desemprego ameaça mais de dois milhões de pessoas, que o PIB deve encolher mais dois ou três por cento e que os escândalos e a corrupção devem continuar nos atormentando ainda por muito tempo. Visto dessa maneira, melhor faríamos se pulássemos este e os próximos dois anos, mas, já que isso não é possível, por quê não olhar para frente e ver quais as oportunidades que nos são oferecidas?
A primeira delas, talvez a mais evidente, diz respeito à energia. O preço do petróleo não para da cair – já despencou 70% nos últimos anos e está apontando para U$ 20 o barril, consequência da queda do consumo na China e na Europa e do crescimento da produção norte-americana do óleo de xisto. Este fenômeno deve durar vários anos e abre uma janela única de oportunidade para as fontes renováveis e não poluentes, tão abundantes no Brasil, de energia solar e eólica. Se tivermos um mínimo de visão estratégica deixaremos de subsidiar e incentivar indústrias consumidoras de petróleo e produtoras de monóxido de carbono e alocaremos estes recursos em:
Pesquisa, desenvolvimento e produção de painéis solares (hoje importados) para grandes parques produtores e também para
A produção individual, instalação de indústrias de moinhos de vento e financiamento de novas hidroelétricas.
Em outras palavras, direcionaremos nosso esforço para o século XXI e não mais para o século XIX, com geração de empregos qualificados, divisas e arrecadação para o país, sem falar nas imensas melhorias para o meio ambiente e para a saúde.
Também com gigantesco benefício para a saúde estão os investimentos que já deveriam, há muito, ter sido feitos em saneamento básico – fornecimento de água potável, coleta e tratamento de esgotos. Estes serviços já deveriam estar universalizados no Brasil há 100 anos, porém ainda há tempo. Assim como na área de geração de energia limpa, os projetos de saneamento são grandes geradores de empregos e renda, além de contribuírem significativamente para a redução das despesas públicas com saúde. São projetos que exigem grande volume de capital, portanto devem ser implantados preferencialmente pelo setor privado, com financiamento internacional (Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento) e nacional (BNDES) e com uma regulamentação racional administrada por agências estaduais e nacionais realmente independentes e profissionais. A tecnologia existe e está disponível, o modelo de gestão idem – resta saber se os políticos serão suficientemente pressionados por nós para viabilizar isso que já deveria ter sido feito décadas atrás.
Uma terceira vertente para a qual devemos voltar nossa atenção está no tema do transporte coletivo urbano, com destaque para as redes subterrâneas de metrô nas grandes cidades. De novo, este é um tópico que poderia e deveria ter sido solucionado há 50 ou 100 anos mas que, por miopia ou má fé de sucessivos governos, foi negligenciado em prol da instalação de uma indústria obsoleta de ônibus e da criação das tão conhecidas máfias das empresas de transporte urbano brasileiras. Agora será muito mais caro e demorado mas, mesmo assim, ainda é uma grande oportunidade para melhorar a qualidade de vida de dezenas de milhões de pessoas e, ao mesmo tempo, gerar milhares de empregos. Claro que, para isso, será necessário abandonar o embolorado viés esquerdista e entregar à iniciativa privada (nacional e estrangeira) a construção e a operação dos sistemas, ficando o estado incumbido somente de regulamentar e fiscalizar. Também aqui existem capitais e linhas de crédito no Brasil e no exterior dispostos a empreender nesta área, bastando que o governo pare de atrapalhar e atue como indutor do progresso e não como obstáculo.
Outras oportunidades, principalmente em infraestrutura de transportes estão à espera de um marco regulatório inteligente e moderno para que projetos e realizações possam deslanchar sob a forma de ferrovias e hidrovias, estradas e aeroportos, bastando que o(s) governo(s) pare(m) de atrapalhar.
O Brasil precisa disso.
Nós precisamos disso.
* João Telles Corrêa Filho é engenheiro e consultor empresarial.